27/12/2011

Úlcera de córnea em melting

Melting significa derretimento em inglês. Isso mesmo, a córnea pode apresentar uma complicação que causa derretimento do seu colágeno. Normalmente é uma contaminação pela bactéria pseudomonas spp. Esta bactéria libera enzimas que destroem o colágeno da córnea. E aí que está o problema...pois mesmo iniciando o tratamento com antibióticos fortificados e eliminando as bactérias estas enzimas já foram liberadas e continuam agindo sobre a córnea...
Para neutralizar a ação destas enzimas precisamos de uma substância poderosa: o sangue. Por isso é indicado procedimento cirúrgico de urgência.
Ao fazer um recobrimento ("flap") com conjuntiva bulbar, levamos irrigação sanguínea para a córnea danificada. Desta forma "oferecemos" um suporte para eliminar as enzimas e oferecer substrato para a cicatrização. Mas mesmo com a cirurgia é importantíssimo manter o trtamento com os colírios antibióticos e antiinflamatórios.

Foi o que aconteceu com o Spock. Ele apresentou uma úlcera complicada, em melting (Figura 1 e 2) e precisou de uma cirurgia. No caso do Spock optei por um flap bipediculado (Figura 3), pois assim a irrigação sanguínea poderia vir por dois lados ao mesmo tempo.

Figura 1 e 2: úlcera de córnea em melting no olho esquerdo.


Figura 3: Flap bipediculado. Figura 4: 30 dias de pós cirúrgico.

Após 30 dias retirei os pontos e cortei os pedículos (Figura 4). E após 60 dias da cirurgia (Figura 5) o Spock estava bem, sem dor e com boa percepção visual do olho operado. Obviamente fica uma grande cicatriz, mas por sorte a do Spock não foi no centro do córnea, possibilitando assim o retorno visual. Em alguns casos, a inflamação intraocular é tão grande que pode até ocorrer descolamento de retina e glaucoma, levando à cegueira.

Figura 5: Spock 60 dias após a cirurgia.

14/07/2011

Afinal, cães enxergam cores?

Estudos apontam que a maioria dos animais domésticos possui e utiliza a visão em cores. Os cães, comparando com as pessoas, possuem somente 10% dos cones (células da retina que são responsáveis pela visão em cores).


Pessoas com a visão normal possuem três tipos de cones: verde, vermelho e azul. Os cães apresentam apenas dois tipos funcionais de cone: um que é semelhante à cor violeta e corresponde ao cone azul para humanos e outro, semelhante ao tom amarelo esverdeado que corresponde ao cone vermelho para humanos. Os cones verdes não estão presentes. Também parecem confundir as cores vermelhas e verdes (deuteranopia, um tipo de daltonismo). Portanto, na presença de tons de azul os cães enxergam a cor violeta e amarelo-esverdeado na presença de vermelho, de verde, de amarelo e de laranja, por exemplo. Sendo assim, entre uma bola azul e uma vermelha em um gramado, o cão possivelmente terá mais facilidade para encontrar a azul.


Em ambientes com pouca luz os cães enxergam melhor do que as pessoas. Isto ocorre porque apresentam mais bastonetes na retina (células responsáveis pela visão noturna), além da presença do tapetum lucidum no fundo do olho. Esta estrutura reflete a luz e "ilumina" o ambiente. As pessoas não possuem esta estrutura. Podemos dizer também que possuem pouca capacidade de focalizar objetos próximos. A capacidade de acomodação do cristalino (lente que faz o foco) de cães jovens é de 1 a 2 dioptrias, enquanto que em pessoas jovens normais é de 10 dioptrias. Portanto, os cães enxergam para perto semelhante a uma pessoa de 60 anos sem óculos! Felizmente eles não precisam de uma visão rica em detalhes para as suas atividades diárias: correr, brincar, coçar, dormir, comer...pois não precisam ler, dirigir e fazer tricot, não é mesmo?






Fonte: SLATTER, D. Fundamentos de Oftalmologia Veterinária. São Paulo: Roca, 2005. cap 1, pag. 5-9.