04/10/2009

CASOS CLÍNICOS

CERATITE VIRAL FELINA

Vou descrever o caso do Billy, um gatinho persa de 3 meses que apresentou muito desconforto no olho esquerdo de uma hora para outra, entretanto não perceberam se ele teve algum trauma no local. Ao conversar com o proprietário descobri que eventualmente apresentava espirros, mas já havia sido vacinado. Em outra ocasião já havia apresentado o mesmo quadro, mas logo se recuperou sem tratamento.
Ao exame oftálmico (Figura 1) apresentou uma úlcera de córnea superficial ("mancha verde" após corar com Fluoresceína) e epitélio da córnea desvitalizado ("mancha rosa" após corar com Rosa Bengala). Prescrevi os colírios adequados para tratar a úlcera, indiquei o uso do colar elizabetano e pedi uma revisão em 72h.


PRIMEIRA REVISÃO


Ao revisar o Billy percebi que não se tratava de uma simples úlcera de córnea superficial, pois não estava respondendo ao tratamento. Agora estava com uma úlcera em toda a córnea (Figura 2). Foi então que solicitei exames de sangue para verificar como estavam as células de defesa do Billy, suspeitando de uma ceratite viral. Prescrevi uma pomada oftálmica antiviral além de intensificar a frequência dos colírios que já estava usando. também alertei os proprietários que se não melhorasse até a próxima revisão (em 48h) teríamos de pensar em uma cirurgia para proteger esta córnea.


SEGUNDA REVISÃO

Realmente ele estava com as células de defesa baixas e ainda com um protozoário(Haemobartonella felis) no sangue. Foi então instituído o tratamento adequado. Quando reavaliei infelizmente estava pior (Figura 3). Apesar da úlcera estar menor ela estava mais profunda e o olho muito inflamado, com presença de vasos na córnea. Já estava ocorrendo uma reação auto-imune na córnea, ou seja, na tentativa de combater o vírus as células de defesa atacam as células da córnea também. Neste caso somente a cirurgia (um flap conjuntival) poderia salvar este olho, pois precisaria trazer sangue para auxiliar a cicatrização. Mas os proprietários não queriam fazer a cirurgia...




Na sequência: Figura 1 (dia 1) , Figura 2 (primeira revisão) e Figura 3 (segunda revisão)


TERCEIRA REVISÃO

Quando perceberam que o olhinho piorava dia-a-dia apesar de estar recebendo todos os colírios da forma adequada resolveram fazer a cirugia. Foi uma cirurgia de urgência pois já havia risco de perfuração ocular (Figura 4). Foi realizado um Flap de conjuntiva bulbar de 360°(Figura 5) e após 3 semanas os pontos foram removidos. Ficou uma cicatriz no local e após 15 dias de tratamento com novos colírios já estava bem menor (Figura 6).



Na sequência: Figura 4 , Figura 5 e Figura 6





Este é o Billy! Um pouco de mau humor, cansado de tanto me visitar!



NOTA:
"Em gatos, o Herpesvírus felino é causa importante de ulceração corneana. A ceratite herpética pode acometer felinos de qualquer faixa etária; todavia são reconhecidos como mais freqüentes os casos acometendo animais adultos com sinais leves de afecção do trato respiratório superior. Cabe lembrar que se trata de afecção manifesta uni ou bilateralmente. As úlceras herpéticas apresentam-se segundo um ou vários padrões. Podem ser pequenas e numerosas (punctatas), lineares e ramificadas (úlceras dendrítica) e geográficas. Os sinais clínicos exibem ainda conjuntivites de leves a moderadas até a perfuração da córnea com perda do olho afetado"

Fonte: (http://www.redevet.com.br/artigos/doencor3.htm)
Extraído de: Revista de Educação Continuada do CRMV-SP / Continuous Education Journal CRMV-SP São Paulo, volume 2, fascículo 1. p26 - 33, 1999. * Com Autorização de Prof. Dr. José Luiz Laus