30/05/2009

Sequestro de Córnea em felinos

O seqüestro corneano também chamado de “córnea nigra”, “necrose corneana” ou “mumificação corneana” é uma alteração na córnea que aparece principalmente em gatos. Mas cavalos (HAKANSON & DUBIELZIG, 1994) e cães (BOUHANNA et al., 2008) também podem ter esta doença. A aparência é de uma placa marrom ou preta, de tamanho variável, no centro da córnea. Não se sabe ao certo ainda o que causa a formação desta placa, mas é visto que uma irritação crônica da superfície da córnea acaba levando ao seqüestro, que nada mais é do que uma degeneração do colágeno causando necrose da córnea (morte do tecido). Portanto, pêlos, ou as pálpebras, tocando constantemente a córnea, infecção crônica nos olhos (vírus e bactérias) e falta de lágrima podem desenvolver esta alteração.


Gato

Figura 1: doença é mais comum em gatos branquicefálicos

É mais comum em gatos braquicefálicos (focinho curto), pois os olhos são mais proeminentes, estando assim mais predispostos a lesões. Além do mais eles fecham menos os olhos que os gatos de focinho comprido, assim espalham menos a lágrima sobre a córnea. As raças mais predispostas são: persa, himalaia e birmanês.

O tratamento indicado é a remoção cirúrgica do seqüestro, tendo em vista que a utilização de colírios não fazem com que a placa desapareça (HERRERA, 2008). Entretanto, é importante utilizar colírios que controlem a inflamação e a infecção. Antigamente a cirurgia não era muito indicada, pois se esperava que a placa “caísse”. Hoje sabemos que esta conduta é arriscada pois por baixo da placa pode haver uma lesão muito profunda na córnea e o olho pode chegar a perfurar, além do enorme desconforto para o animal. A cirurgia é realizada sob microscópio cirúrgico (Figura 3) com instrumentos muito delicados, próprios para microcirugia. Também é importante tratar possíveis causas do sequestro, quando presentes, como: entrópio (pálpebras viradas para dentro), triquíase (pêlos tocando a córnea), olho seco e conjuntivites crônicas. O estado sistêmico (geral) também deve ser acompanhado de perto, pois muitos gatos com seqüestro apresentam uma baixa imunidade.


sequestro de córnea

Figura 2: Seqüestro de córnea em felino da raça persa. Observe úlcera de córnea superficial ao redor da placa escura.

Figura 3: Dra Fabiana realizando cirurgia com microscópio cirúrgico. Serviço de Oftalmologia Veterinária UFRGS.

REFERÊNCIAS
1. BOUHANNA, L.; LISCOËT, L.B.; RAYMOND-LETRON, I. Corneal stromal sequestration in a dog. Veterinary Ophthalmology. 2008; 11(4):211-214.

2. HAKANSON, N.E.; DUBIELZIG, R.R. Chronic superficial corneal erosions with anterior stromal sequestration in three horses. Veterinary and Comparative Ophthalmology 1994. 4(4):179-183.

3. HERRERA, D. Oftalmologia no gato. In: HERRERA, D. Oftalmologia Clínica em animais de companhia. 1. Ed. São Paulo: MedVet Livros. 2008:237-262

09/05/2009

Ceratoconjuntivite Seca

A ceratoconjuntivite seca (CCS) é um ressecamento da córnea e da conjuntiva causado por uma diminuição da porção aquosa da lágrima. É uma doença oftálmica progressiva (pode levar à cegueira) associada com inflamação, secreção ocular e dor. Muitas espécies animais são afetadas, mas é mais freqüente em cães. Inicialmente, os sinais são muito semelhantes aos de uma conjuntivite (olho vermelho, secreção ocular, coceira), o que muitas vezes retarda o diagnóstico e o tratamento correto. Mais tarde a córnea começa a ficar pigmentada (manchas escuras) levando o animal à cegueira.

Qualquer raça pode apresentar a doença, mas as que apresentam maior predisposição para a ceratoconjuntivite seca, são: Cocker Spaniel Americano, Buldogue Inglês, Schnauzer miniatura, Pug, Yorkshire Terrier, Pequinês, West Highland White Terrier. English Springer Spaniel. Samoyeda, Shih-tzu e Boston Terrier.

Em gatos a ceratoconuntivite seca é menos freqüente do que em cães, mas algumas raças apresentam predisposição: Abssínio, Persa, Burmês e Himalaia.

Glândula Lacrimal

A lágrima tem a função de nutrir, proteger e lubrificar a superfície ocular. Ela é formada por três componentes: um aquoso, um mucoso e um gorduroso. A porção aquosa (água) forma cerca de 90% da lágrima e é secretada pela glândula lacrimal principal e pela acessória (glândula da terceira pálpebra). A glândula da terceira pálpebra é responsável por até 50% da secreção da porção aquosa da lágrima, por isso deve ser sempre reposicionada cirurgicamente quando “salta para fora”. Esta glândula só pode ser removida em casos onde esteja gravemente danificada. A porção gordurosa é secretada pelas glândulas tarsais (margem palpebral) e a mucosa pelas células caliciformes presentes na conjuntiva.

glandula lacrimal

Figura 1: Desenho esquemático localizando a glândula lacrimal principal e a glândula da terceira pálpebra. ( Fonte:www.luvdpugs.net/id14.html)


glandula terceira palpebra

Figura 2: Olho de cão evidenciando protusão da glândula da terceira pálpebra.

Pouca Lágrima pode causar Ceratoconjuntivite Seca

A quantidade de lágrima está diminuída quando há perda da fração aquosa, ou seja, quando há menos água do que deveria. Se há menos água, há excesso de muco e gordura, aumentando a secreção ocular e dando um aspecto de infecção nos olhos. Muitas vezes pode ocorrer uma contaminação bacteriana secundária, pois com pouca lágrima a córnea fica com menos células de defesa.

Figura 3: (A) Cão com superfície ocular ressecada, com presença de secreção mucopurulenta. (B) Superfície ocular após remoção da secreção. Observe opacidade corneana e presença de vasos.

Existem muitas causas conhecidas de ceratoconjuntivite seca:
  • Congênita (de nascença)e possivelmente hereditária (transmitido dos pais para os filhos);
  • Lesões traumáticas nas glândulas lacrimais ou na sua inervação (base da orelha);
  • Remoção cirúrgica ou lesão grave da glândula da terceira pálpebra;
  • Carência de vitamina A;
  • Distúrbios endócrinos (como hipotireoidismo e diabetes);
  • Tratamentos prolongados com medicações a base de sulfa ou colírio de atropina;
  • Botulismo;
  • Doenças sistêmicas, como em casos de cinomose em cães e infecção por herpesvírus em gatos;
  • Doenças auto-imunes e degenerativas;
  • Atrofia senil (perda de função por envelhecimento); e
  • Causa idiopática (desconhecida).

Diagnóstico de Ceratoconjuntivite Seca

O diagnóstico é estabelecido através do exame oftálmico realizado por um veterinário (preferencialmente especializado em oftalmologia veterinária) e das informações sobre o histórico do paciente. O Teste da Lágrima de Schirmer consiste de uma tira de papel filtro milimetrada que mensura a quantidade de lágrima produzida. Valores normais estão entre 15 e 25mm/min. Valores abaixo de 14mm/min já são considerados ceratoconjuntivite seca subclínica e abaixo de 10mm/min já ocorre apresentação de olho seco.

Geralmente a doença ocorre nos dois olhos, mas há casos em que apenas um olho está seco, principalmente em casos de trauma (batida na cabeça, acidente automobilístico). Também é importante realizar o teste de fluoresceína, pois uma superfície ocular ressecada está mais sujeita a úlceras de córnea.

Figura 4: Teste da Lágrima de Shirmer em cão. Olho esquerdo (A) sem alterações, com produção lacrimal de 20mm/min e olho direito (B) com ceratoconjuntivite seca severa, com 0 mm/min de produção lacrimal.

cegueira causada por ceratoconjuntivite

Figura 5: Cão cego devido pigmentação difusa da córnea causada por ceratoconjuntivite seca crônica. Teste de fluoresceína negativo

Tratamento para a Ceratoconjuntivite Seca

O tratamento consiste em utilização de colírios que estimulam a produção lacrimal (Ciclosporina A, Tacrolimus, Pimecrolimus) e substitutos da lágrima. No início do tratamento é necessário associar colírios anti-inflamatórios e antibióticos. Em média são necessários mais de 30 dias de tratamento para começar o estímulo na glândula lacrimal. Este tratamento deve ser realizado por um médico veterinário oftalmologista, para que seja realizada a escolha correta do antibiótico, do anti-inflamatório e da concentração do colírio estimulante da lágrima.

Casos mais graves que não respondem ao tratamento clínico podem ser tratados cirurgicamente. A transposição do ducto parotídeo é uma cirurgia que consiste em “desviar” um ducto salivar. Assim a saliva vai para o olho para substituir a lágrima. Mas geralmente ocorrem muitas complicações, sendo realizada em último caso.

É importante alertar que a ceratoconjuntivite seca não tem cura, mas sim controle. Mesmo que melhore muito basta parar com os estimulantes lacrimais para que todos os sinais voltem a aparecer, ou seja, o paciente necessita de tratamento para o resto da vida.

(STADES et al., 1999; MOORE, 1999; GELATT, 2003; SLATTER, 2005).