21/04/2009

Catarata no cão e no gato

A catarata é uma doença oftálmica que pode atingir cães e gatos. Sendo assim, vou falar como ocorre a catarata no cão e no gato, explicando as suas principais consequências.


O que é a Catarata


A catarata é a opacificação das fibras ou da cápsula da lente. Pode ser originária de problemas congênitos, traumas, inflamações intra-oculares severas, diabetes, intoxicação por naftaleno ou dinitrofenol, pelo processo de envelhecimento (que deve ser diferenciado da esclerose da lente que ocorre em torno dos 8 anos em todos os cães) ou por um defeito hereditário recessivo, que é a causa mais comum.


A lente é uma estrutura biconvexa e transparente que, em seu estado normal, atua focalizando as imagens na retina, através do fenômeno conhecido como acomodação visual. O poder de acomodação no cão é pouco desenvolvido, cerca de 1 a 2 dioptrias (D), sendo que em um humano adulto jovem é cerca de 10 D. Com a idade as pessoas vão perdendo a amplitude de acomodação da lente, e aos 55 anos apresentam cerca de 1,5 D, ou seja, quando a imagem está perto o poder de focalização é semelhante ao de um cão.


acomodacao lente

Figura 1: Desenho esquemático demonstrando a acomodação da lente. Fonte: Slatter, 2005.


Raças Predispostas para a Catarata


No cão, as principais raças predispostas ao desenvolvimento de catarata hereditária são: Poodle, Cocker Spaniel Americano e Inglês, Schnauzer miniatura, Golden e Labrador Retriever, West Highland White Terrier e Afghan Hound.


Catarata em Gatos


A catarata em gatos ocorre com menos freqüência e está relacionada principalmente com o envelhecimento, inflamações intra-oculares ou diabetes.




Figura 2: Catarata madura em cão da raça poodle (A) e catarata madura em gato da raça persa (B).


Causas da Catarata


Independente da causa da catarata quanto mais cedo for diagnosticada e tratada melhores são os resultados, pois não é apenas uma opacificação que leva à cegueira, é uma doença intra-ocular e deve ser tratada como tal. Entretanto, mesmo proprietários extremamente cuidadosos não conseguem perceber uma catarata inicial, pois o exame só é possível com a pupila dilatada, nesse caso é recomendável que seja feito por um oftalmologista veterinário.


A catarata pode ser causada por inflamação intra-ocular (uveíte), mas ela também causa inflamação quando as proteínas da lente se soltam, principalmente nas cataratas maduras. A uveíte não controlada causa dor e pode culminar em glaucoma, pois as células inflamatórias obstruem o ângulo que drena o líquido de dentro do olho (humor aquoso). Então imagine, é como se fosse uma “torneira aberta com o ralo entupido”.


Cão com sinais de uveíte e glaucoma

Figura 3: Cão com sinais de uveíte e glaucoma. Observe olho vermelho e edema de córnea.


Tratamento da Catarata


O tratamento da catarata é exclusivamente cirúrgico. Não existem comprovações científicas de que o tratamento clínico da catarata possa retardar o desenvolvimento da catarata canina e nos demais animais. Como a cirurgia é realizada por facoemulsificação (ultra-som) os melhores resultados são em cataratas imaturas, ou seja, bem iniciais. Mas cataratas maduras também podem ser operadas.


Outro ponto importante é que a catarata canina, não raro, está acompanhada de atrofia progressiva de retina, principalmente nas raças Poodle e Cocker. Por isso, sempre que o exame do fundo do olho não seja possível é indicada uma eletroretinografia em pacientes candidatos à cirurgia, pois se a retina está atrofiada, mesmo com a remoção da catarata o paciente não volta a enxergar. Mas então, se a retina está atrofiada a cirurgia não é indicada? Na verdade, como a catarata é uma doença ela deve ser removida, pois as suas complicações podem levar à perda do olho. A eletroretinografia serve para nos dar um prognóstico, ou seja, quais as chances do animal voltar a enxergar depois da cirurgia.


Prevenção


Não há como prevenir o aparecimento da catarata, mas podemos diminuir a sua incidência não reproduzindo animais afetados. As complicações sim podem ser prevenidas e quanto antes diagnosticarmos a catarata melhor. É importante uma avaliação oftálmica de rotina, principalmente nas raças predispostas. Mas não esqueça que as demais raças e nossos queridos amigos “vira-latas” não estão livres de alterações oftálmicas.

12/04/2009

Úlceras de Córnea

Úlceras de córnea ocorrem com grande freqüência em cães e gatos, principalmente nas raças braquicefálicas (focinho “achatado”). Podem ser causadas por diversos motivos, mas os principais são os traumas, entrópio (pálpebras viradas para dentro), triquíase e distiquíase (cílios e pêlos tocando a córnea) e ceratoconjuntivite seca (doença causada pela diminuição da quantidade ou da qualidade da lágrima).

Por que tratar a Úlcera de Córnea?


Quanto mais superficial a úlcera de córnea mais dolorida ela é, pois as terminações nervosas da córnea se encontraram na superfície. Por isso que apresentamos o reflexo de piscar quando cai um cisco no olho, por exemplo. Portanto quando seu animalzinho aparentar desconforto ocular (olho fechado, piscando muito e lacrimejando), procure o mais rápido possível um oftalmologista veterinário. Agora você pode se perguntar: “mas se é superficial, porque a urgência no atendimento?”. Porque em úlceras mais profundas a dor é menos intensa (não há terminações nervosas nas camadas mais profundas), então você pode achar que ele está “melhorando”, mas na verdade a situação está mais grave, e uma úlcera de córnea não tratada, ou tratada de maneira incorreta, pode levar à perfuração ocular.

Constituição da Córnea


Apesar de a córnea ser uma estrutura fina (0,6 a 1,0 mm de espessura central em cães) microscopicamente é constituída por quatro camadas:
  • Epitélio com membrana basal;
  • Estroma;
  • Membrana de descemet e endotélio (figura 1 A).
Quando ocorre uma úlcera superficial, a camada epitelial já foi perdida e a lesão já se encontra no estroma (figura 1 B).

camadas histológicas da córnea e de uma córnea com úlcera

Figura 1: Desenho esquemático das camadas histológicas da córnea (A) e de uma úlcera corneana atingindo a camada estromal (B).

Diagnóstico de Úlcera de Córnea


O diagnóstico é realizado quando instilamos colírio de fluoresceína sobre a córnea. Este colírio irá corar de verde o local onde está a úlcera (figura 2 B).

Córnea antes e depois do teste de fluoresceína

Figura 2: Córnea antes do teste da fluoresceína. Teste da fluoresceína positiva evidenciando úlcera de córnea superficial em cão (seta) (B).

Sem este teste, muitas vezes, é difícil localizar a lesão (figura 2 A). Mas a fluoresceína só cora a camada estromal da córnea, portanto úlceras muito profundas (figura 3), com risco de perfuração ocular, não se coram.

Úlcera profunda

Figura 3: Úlcera profunda (seta) em cão com ceratoconjuntivite seca crônica. Observe intensa melanose e edema de córnea.

04/04/2009

Bulbo Ocular

Vou falar hoje sobre o Bulbo Ocular e algumas de suas características. Vamos inicialmente nos familiarizar com a anatomia ocular e nos próximos artigos abordar aos poucos suas características. Gostaria de lembrar que devido às diferenças entre as espécies animais e ainda entre as raças, a oftalmologia veterinária é uma área muito vasta, portanto deve ser exercida por um especialista que se dedique somente ao estudo deste ramo da medicina veterinária.

Anatomia do Bulbo do Olho


A parede do bulbo do olho é constituída por três túnicas:
  • Túnica externa, fibrosa e protetora, representada pela esclera e pela córnea;
  • Túnica média vascular, constituída pela úvea que divide-se em íris, corpo ciliar e coróide ; e
  • Túnica interna nervosa, com a retina, disco do nervo óptico e nervo óptico.
O humor aquoso, o cristalino e o vítreo preenchem todo o olho. A maior parte deste preenchimento, cerca de três quartos, é devido ao vítreo.

bulbo ocular

Figura 1: Desenho esquemático do bulbo ocular.


olho felino

Figura 2: Vista lateral do olho felino. Observar transparência da córnea.

Superfície ocular sem alterações


As estruturas que integram a superfície ocular são:
  • a conjuntiva;

  • a membrana nictitante (terceira pálpebra);

  • a córnea; e

  • a esclera.
A terceira pálpebra pode ser pigmentada (Figura 3 A) ou não (Figura 3 B). A córnea sem alterações é transparente, sem vasos sanguíneos e sem pigmentos, possibilitando a visibilização da íris (parte colorida) e da pupila (menina dos olhos). Notar a diferença na pupila de cães e gatos quando em miose (pupila pequena na presença de luz).



Figura 3: Superfície ocular normal do cão (A) e do gato (B).

No próximo post vou falar um pouco mais sobre a córnea, as doenças mais comuns e como evitá-las.