04/10/2009

CASOS CLÍNICOS

CERATITE VIRAL FELINA

Vou descrever o caso do Billy, um gatinho persa de 3 meses que apresentou muito desconforto no olho esquerdo de uma hora para outra, entretanto não perceberam se ele teve algum trauma no local. Ao conversar com o proprietário descobri que eventualmente apresentava espirros, mas já havia sido vacinado. Em outra ocasião já havia apresentado o mesmo quadro, mas logo se recuperou sem tratamento.
Ao exame oftálmico (Figura 1) apresentou uma úlcera de córnea superficial ("mancha verde" após corar com Fluoresceína) e epitélio da córnea desvitalizado ("mancha rosa" após corar com Rosa Bengala). Prescrevi os colírios adequados para tratar a úlcera, indiquei o uso do colar elizabetano e pedi uma revisão em 72h.


PRIMEIRA REVISÃO


Ao revisar o Billy percebi que não se tratava de uma simples úlcera de córnea superficial, pois não estava respondendo ao tratamento. Agora estava com uma úlcera em toda a córnea (Figura 2). Foi então que solicitei exames de sangue para verificar como estavam as células de defesa do Billy, suspeitando de uma ceratite viral. Prescrevi uma pomada oftálmica antiviral além de intensificar a frequência dos colírios que já estava usando. também alertei os proprietários que se não melhorasse até a próxima revisão (em 48h) teríamos de pensar em uma cirurgia para proteger esta córnea.


SEGUNDA REVISÃO

Realmente ele estava com as células de defesa baixas e ainda com um protozoário(Haemobartonella felis) no sangue. Foi então instituído o tratamento adequado. Quando reavaliei infelizmente estava pior (Figura 3). Apesar da úlcera estar menor ela estava mais profunda e o olho muito inflamado, com presença de vasos na córnea. Já estava ocorrendo uma reação auto-imune na córnea, ou seja, na tentativa de combater o vírus as células de defesa atacam as células da córnea também. Neste caso somente a cirurgia (um flap conjuntival) poderia salvar este olho, pois precisaria trazer sangue para auxiliar a cicatrização. Mas os proprietários não queriam fazer a cirurgia...




Na sequência: Figura 1 (dia 1) , Figura 2 (primeira revisão) e Figura 3 (segunda revisão)


TERCEIRA REVISÃO

Quando perceberam que o olhinho piorava dia-a-dia apesar de estar recebendo todos os colírios da forma adequada resolveram fazer a cirugia. Foi uma cirurgia de urgência pois já havia risco de perfuração ocular (Figura 4). Foi realizado um Flap de conjuntiva bulbar de 360°(Figura 5) e após 3 semanas os pontos foram removidos. Ficou uma cicatriz no local e após 15 dias de tratamento com novos colírios já estava bem menor (Figura 6).



Na sequência: Figura 4 , Figura 5 e Figura 6





Este é o Billy! Um pouco de mau humor, cansado de tanto me visitar!



NOTA:
"Em gatos, o Herpesvírus felino é causa importante de ulceração corneana. A ceratite herpética pode acometer felinos de qualquer faixa etária; todavia são reconhecidos como mais freqüentes os casos acometendo animais adultos com sinais leves de afecção do trato respiratório superior. Cabe lembrar que se trata de afecção manifesta uni ou bilateralmente. As úlceras herpéticas apresentam-se segundo um ou vários padrões. Podem ser pequenas e numerosas (punctatas), lineares e ramificadas (úlceras dendrítica) e geográficas. Os sinais clínicos exibem ainda conjuntivites de leves a moderadas até a perfuração da córnea com perda do olho afetado"

Fonte: (http://www.redevet.com.br/artigos/doencor3.htm)
Extraído de: Revista de Educação Continuada do CRMV-SP / Continuous Education Journal CRMV-SP São Paulo, volume 2, fascículo 1. p26 - 33, 1999. * Com Autorização de Prof. Dr. José Luiz Laus

22/06/2009

Glaucoma

O Glaucoma é uma doença grave, de causa multifatorial, caracterizada pela elevação da pressão intra-ocular e pela morte de células da retina e do nervo óptico. É o maior desafio encontrado na oftalmologia veterinária, e também na humana, pois promove cegueira irreversível, sendo, portanto, considerado uma emergência oftálmica.

O humor aquoso (líquido de dentro do olho) é constantemente produzido e eliminado. Ele tem a função de “nutrir e limpar” o olho, além de manter a pressão constante dando forma ao olho. Qualquer situação que aumente a produção ou dificulte a drenagem do humor aquoso modifica a pressão intra-ocular e pode levar ao glaucoma.

Existem vários tipos de Glaucoma: congênitos (alterações de nascença geralmente em cães da raça Chiahuahua, Bouvier dês Flandres, Schnauzer Gigante, Cocker Spaniel e Samoieda), primários (aparecem sem ter tido doença ocular prévia e são ligados a algumas raças) e secundários (causados por inflamação, trauma, catarata, luxação da lente ou tumor intra-ocular).

Dos animais domésticos, o cão é o que mais apresenta glaucoma, pois existem várias raças com tendência a ter má-formação no “canal” que drena o humor aquoso. Por exemplo: Basset Hound, Beagle, Cocker Spaniel e Poodle, dentre outras. Em gatos a maioria dos casos de glaucoma são secundários à uveítes (inflamação intra-ocular), luxação da lente ou tumor intra-ocular, sendo o glaucoma primário dificilmente visto. Cavalos apresentam menos glaucoma do que cães e gatos e quando ocorre geralmente é secundário à uveíte recorrente eqüina. Parece haver uma predisposição em cavalos da raça Appaloosa (SLATTER, 2005).

Diagnóstico do Glaucoma


O diagnóstico é baseado na tonometria (avaliação da pressão intra-ocular) – Figura 1, na gonioscopia (avaliação do ângulo que drena o humor aquoso), na fundoscopia (exame do fundo do olho) e nos sinais clínicos (buftalmia – olho saltado-, olho vermelho, opacidade de córnea, pupila dilatada) - Figura 2 e 3. Em oftalmologia veterinária a principal forma de diagnóstico e controle do glaucoma é a tonometria e a fundoscopia onde podem ser detectadas alterações iniciais, pois não contamos com diversos exames realizados em oftalmologia humana, apesar de já estarmos avançando na área de ultra-sonografia e eletrorretinografia. Quando o paciente apresenta os sinais clínicos descritos acima já se encontra em um estado muito avançado da doença.

exame para diagnóstico do Glaucoma

Figura 1: Dra Fabiana verificando a pressão intra-ocular de um cão através de tonometria de aplanação.

Cão com Glaucoma

Figura 2: Cão da raça Samoieda com glaucoma apresentando buftalmia (olhos saltados).


Figura 3: Cão com sinais de uveíte e glaucoma. Observe olho vermelho e edema de córnea.


Tratamento do Glaucoma


O tratamento clínico é realizado com colírios que diminuem a formação do humor aquoso associados com outros que aumentam a drenagem. O tratamento cirúrgico tem a mesma finalidade, sendo os mais aceitos a ciclofotocoagulação a laser e os gonioimplantes (shunts – válvulas - de câmara anterior). Devido ao custo elevado e ao alto índice de complicações pós-operatórias, o tratamento cirúrgico é realizado ainda em nível experimental no Brasil.

Até o presente momento, o tratamento clínico/cirúrgico do glaucoma visa apenas o controle da pressão intra-ocular, reduzindo desta forma a dor do paciente. Em longo prazo, a cegueira é inevitável, pois apesar dos esforços, ainda não se encontra disponível nenhuma substância capaz de impedir a morte das células da retina (RIBEIRO; MARTINS; LAUS, 2006).

REFERENCIAS

MARTINS, Bianca da Costa; VICENTI, Felipe Antônio Mendes e LAUS, José Luiz. Síndrome glaucomatosa em cães: parte 1. Cienc. Rural [online]. 2006, vol.36, n.6, pp. 1952-1958. ISSN 0103-8478. doi: 10.1590/S0103-84782006000600049.
SLATTER, D. Glaucoma. In:______. Fundamentos de Oftalmologia Veterinária. 3.ed. Roca: São Paulo, 2005. p.405.

30/05/2009

Sequestro de Córnea em felinos

O seqüestro corneano também chamado de “córnea nigra”, “necrose corneana” ou “mumificação corneana” é uma alteração na córnea que aparece principalmente em gatos. Mas cavalos (HAKANSON & DUBIELZIG, 1994) e cães (BOUHANNA et al., 2008) também podem ter esta doença. A aparência é de uma placa marrom ou preta, de tamanho variável, no centro da córnea. Não se sabe ao certo ainda o que causa a formação desta placa, mas é visto que uma irritação crônica da superfície da córnea acaba levando ao seqüestro, que nada mais é do que uma degeneração do colágeno causando necrose da córnea (morte do tecido). Portanto, pêlos, ou as pálpebras, tocando constantemente a córnea, infecção crônica nos olhos (vírus e bactérias) e falta de lágrima podem desenvolver esta alteração.


Gato

Figura 1: doença é mais comum em gatos branquicefálicos

É mais comum em gatos braquicefálicos (focinho curto), pois os olhos são mais proeminentes, estando assim mais predispostos a lesões. Além do mais eles fecham menos os olhos que os gatos de focinho comprido, assim espalham menos a lágrima sobre a córnea. As raças mais predispostas são: persa, himalaia e birmanês.

O tratamento indicado é a remoção cirúrgica do seqüestro, tendo em vista que a utilização de colírios não fazem com que a placa desapareça (HERRERA, 2008). Entretanto, é importante utilizar colírios que controlem a inflamação e a infecção. Antigamente a cirurgia não era muito indicada, pois se esperava que a placa “caísse”. Hoje sabemos que esta conduta é arriscada pois por baixo da placa pode haver uma lesão muito profunda na córnea e o olho pode chegar a perfurar, além do enorme desconforto para o animal. A cirurgia é realizada sob microscópio cirúrgico (Figura 3) com instrumentos muito delicados, próprios para microcirugia. Também é importante tratar possíveis causas do sequestro, quando presentes, como: entrópio (pálpebras viradas para dentro), triquíase (pêlos tocando a córnea), olho seco e conjuntivites crônicas. O estado sistêmico (geral) também deve ser acompanhado de perto, pois muitos gatos com seqüestro apresentam uma baixa imunidade.


sequestro de córnea

Figura 2: Seqüestro de córnea em felino da raça persa. Observe úlcera de córnea superficial ao redor da placa escura.

Figura 3: Dra Fabiana realizando cirurgia com microscópio cirúrgico. Serviço de Oftalmologia Veterinária UFRGS.

REFERÊNCIAS
1. BOUHANNA, L.; LISCOËT, L.B.; RAYMOND-LETRON, I. Corneal stromal sequestration in a dog. Veterinary Ophthalmology. 2008; 11(4):211-214.

2. HAKANSON, N.E.; DUBIELZIG, R.R. Chronic superficial corneal erosions with anterior stromal sequestration in three horses. Veterinary and Comparative Ophthalmology 1994. 4(4):179-183.

3. HERRERA, D. Oftalmologia no gato. In: HERRERA, D. Oftalmologia Clínica em animais de companhia. 1. Ed. São Paulo: MedVet Livros. 2008:237-262

09/05/2009

Ceratoconjuntivite Seca

A ceratoconjuntivite seca (CCS) é um ressecamento da córnea e da conjuntiva causado por uma diminuição da porção aquosa da lágrima. É uma doença oftálmica progressiva (pode levar à cegueira) associada com inflamação, secreção ocular e dor. Muitas espécies animais são afetadas, mas é mais freqüente em cães. Inicialmente, os sinais são muito semelhantes aos de uma conjuntivite (olho vermelho, secreção ocular, coceira), o que muitas vezes retarda o diagnóstico e o tratamento correto. Mais tarde a córnea começa a ficar pigmentada (manchas escuras) levando o animal à cegueira.

Qualquer raça pode apresentar a doença, mas as que apresentam maior predisposição para a ceratoconjuntivite seca, são: Cocker Spaniel Americano, Buldogue Inglês, Schnauzer miniatura, Pug, Yorkshire Terrier, Pequinês, West Highland White Terrier. English Springer Spaniel. Samoyeda, Shih-tzu e Boston Terrier.

Em gatos a ceratoconuntivite seca é menos freqüente do que em cães, mas algumas raças apresentam predisposição: Abssínio, Persa, Burmês e Himalaia.

Glândula Lacrimal

A lágrima tem a função de nutrir, proteger e lubrificar a superfície ocular. Ela é formada por três componentes: um aquoso, um mucoso e um gorduroso. A porção aquosa (água) forma cerca de 90% da lágrima e é secretada pela glândula lacrimal principal e pela acessória (glândula da terceira pálpebra). A glândula da terceira pálpebra é responsável por até 50% da secreção da porção aquosa da lágrima, por isso deve ser sempre reposicionada cirurgicamente quando “salta para fora”. Esta glândula só pode ser removida em casos onde esteja gravemente danificada. A porção gordurosa é secretada pelas glândulas tarsais (margem palpebral) e a mucosa pelas células caliciformes presentes na conjuntiva.

glandula lacrimal

Figura 1: Desenho esquemático localizando a glândula lacrimal principal e a glândula da terceira pálpebra. ( Fonte:www.luvdpugs.net/id14.html)


glandula terceira palpebra

Figura 2: Olho de cão evidenciando protusão da glândula da terceira pálpebra.

Pouca Lágrima pode causar Ceratoconjuntivite Seca

A quantidade de lágrima está diminuída quando há perda da fração aquosa, ou seja, quando há menos água do que deveria. Se há menos água, há excesso de muco e gordura, aumentando a secreção ocular e dando um aspecto de infecção nos olhos. Muitas vezes pode ocorrer uma contaminação bacteriana secundária, pois com pouca lágrima a córnea fica com menos células de defesa.

Figura 3: (A) Cão com superfície ocular ressecada, com presença de secreção mucopurulenta. (B) Superfície ocular após remoção da secreção. Observe opacidade corneana e presença de vasos.

Existem muitas causas conhecidas de ceratoconjuntivite seca:
  • Congênita (de nascença)e possivelmente hereditária (transmitido dos pais para os filhos);
  • Lesões traumáticas nas glândulas lacrimais ou na sua inervação (base da orelha);
  • Remoção cirúrgica ou lesão grave da glândula da terceira pálpebra;
  • Carência de vitamina A;
  • Distúrbios endócrinos (como hipotireoidismo e diabetes);
  • Tratamentos prolongados com medicações a base de sulfa ou colírio de atropina;
  • Botulismo;
  • Doenças sistêmicas, como em casos de cinomose em cães e infecção por herpesvírus em gatos;
  • Doenças auto-imunes e degenerativas;
  • Atrofia senil (perda de função por envelhecimento); e
  • Causa idiopática (desconhecida).

Diagnóstico de Ceratoconjuntivite Seca

O diagnóstico é estabelecido através do exame oftálmico realizado por um veterinário (preferencialmente especializado em oftalmologia veterinária) e das informações sobre o histórico do paciente. O Teste da Lágrima de Schirmer consiste de uma tira de papel filtro milimetrada que mensura a quantidade de lágrima produzida. Valores normais estão entre 15 e 25mm/min. Valores abaixo de 14mm/min já são considerados ceratoconjuntivite seca subclínica e abaixo de 10mm/min já ocorre apresentação de olho seco.

Geralmente a doença ocorre nos dois olhos, mas há casos em que apenas um olho está seco, principalmente em casos de trauma (batida na cabeça, acidente automobilístico). Também é importante realizar o teste de fluoresceína, pois uma superfície ocular ressecada está mais sujeita a úlceras de córnea.

Figura 4: Teste da Lágrima de Shirmer em cão. Olho esquerdo (A) sem alterações, com produção lacrimal de 20mm/min e olho direito (B) com ceratoconjuntivite seca severa, com 0 mm/min de produção lacrimal.

cegueira causada por ceratoconjuntivite

Figura 5: Cão cego devido pigmentação difusa da córnea causada por ceratoconjuntivite seca crônica. Teste de fluoresceína negativo

Tratamento para a Ceratoconjuntivite Seca

O tratamento consiste em utilização de colírios que estimulam a produção lacrimal (Ciclosporina A, Tacrolimus, Pimecrolimus) e substitutos da lágrima. No início do tratamento é necessário associar colírios anti-inflamatórios e antibióticos. Em média são necessários mais de 30 dias de tratamento para começar o estímulo na glândula lacrimal. Este tratamento deve ser realizado por um médico veterinário oftalmologista, para que seja realizada a escolha correta do antibiótico, do anti-inflamatório e da concentração do colírio estimulante da lágrima.

Casos mais graves que não respondem ao tratamento clínico podem ser tratados cirurgicamente. A transposição do ducto parotídeo é uma cirurgia que consiste em “desviar” um ducto salivar. Assim a saliva vai para o olho para substituir a lágrima. Mas geralmente ocorrem muitas complicações, sendo realizada em último caso.

É importante alertar que a ceratoconjuntivite seca não tem cura, mas sim controle. Mesmo que melhore muito basta parar com os estimulantes lacrimais para que todos os sinais voltem a aparecer, ou seja, o paciente necessita de tratamento para o resto da vida.

(STADES et al., 1999; MOORE, 1999; GELATT, 2003; SLATTER, 2005).

21/04/2009

Catarata no cão e no gato

A catarata é uma doença oftálmica que pode atingir cães e gatos. Sendo assim, vou falar como ocorre a catarata no cão e no gato, explicando as suas principais consequências.


O que é a Catarata


A catarata é a opacificação das fibras ou da cápsula da lente. Pode ser originária de problemas congênitos, traumas, inflamações intra-oculares severas, diabetes, intoxicação por naftaleno ou dinitrofenol, pelo processo de envelhecimento (que deve ser diferenciado da esclerose da lente que ocorre em torno dos 8 anos em todos os cães) ou por um defeito hereditário recessivo, que é a causa mais comum.


A lente é uma estrutura biconvexa e transparente que, em seu estado normal, atua focalizando as imagens na retina, através do fenômeno conhecido como acomodação visual. O poder de acomodação no cão é pouco desenvolvido, cerca de 1 a 2 dioptrias (D), sendo que em um humano adulto jovem é cerca de 10 D. Com a idade as pessoas vão perdendo a amplitude de acomodação da lente, e aos 55 anos apresentam cerca de 1,5 D, ou seja, quando a imagem está perto o poder de focalização é semelhante ao de um cão.


acomodacao lente

Figura 1: Desenho esquemático demonstrando a acomodação da lente. Fonte: Slatter, 2005.


Raças Predispostas para a Catarata


No cão, as principais raças predispostas ao desenvolvimento de catarata hereditária são: Poodle, Cocker Spaniel Americano e Inglês, Schnauzer miniatura, Golden e Labrador Retriever, West Highland White Terrier e Afghan Hound.


Catarata em Gatos


A catarata em gatos ocorre com menos freqüência e está relacionada principalmente com o envelhecimento, inflamações intra-oculares ou diabetes.




Figura 2: Catarata madura em cão da raça poodle (A) e catarata madura em gato da raça persa (B).


Causas da Catarata


Independente da causa da catarata quanto mais cedo for diagnosticada e tratada melhores são os resultados, pois não é apenas uma opacificação que leva à cegueira, é uma doença intra-ocular e deve ser tratada como tal. Entretanto, mesmo proprietários extremamente cuidadosos não conseguem perceber uma catarata inicial, pois o exame só é possível com a pupila dilatada, nesse caso é recomendável que seja feito por um oftalmologista veterinário.


A catarata pode ser causada por inflamação intra-ocular (uveíte), mas ela também causa inflamação quando as proteínas da lente se soltam, principalmente nas cataratas maduras. A uveíte não controlada causa dor e pode culminar em glaucoma, pois as células inflamatórias obstruem o ângulo que drena o líquido de dentro do olho (humor aquoso). Então imagine, é como se fosse uma “torneira aberta com o ralo entupido”.


Cão com sinais de uveíte e glaucoma

Figura 3: Cão com sinais de uveíte e glaucoma. Observe olho vermelho e edema de córnea.


Tratamento da Catarata


O tratamento da catarata é exclusivamente cirúrgico. Não existem comprovações científicas de que o tratamento clínico da catarata possa retardar o desenvolvimento da catarata canina e nos demais animais. Como a cirurgia é realizada por facoemulsificação (ultra-som) os melhores resultados são em cataratas imaturas, ou seja, bem iniciais. Mas cataratas maduras também podem ser operadas.


Outro ponto importante é que a catarata canina, não raro, está acompanhada de atrofia progressiva de retina, principalmente nas raças Poodle e Cocker. Por isso, sempre que o exame do fundo do olho não seja possível é indicada uma eletroretinografia em pacientes candidatos à cirurgia, pois se a retina está atrofiada, mesmo com a remoção da catarata o paciente não volta a enxergar. Mas então, se a retina está atrofiada a cirurgia não é indicada? Na verdade, como a catarata é uma doença ela deve ser removida, pois as suas complicações podem levar à perda do olho. A eletroretinografia serve para nos dar um prognóstico, ou seja, quais as chances do animal voltar a enxergar depois da cirurgia.


Prevenção


Não há como prevenir o aparecimento da catarata, mas podemos diminuir a sua incidência não reproduzindo animais afetados. As complicações sim podem ser prevenidas e quanto antes diagnosticarmos a catarata melhor. É importante uma avaliação oftálmica de rotina, principalmente nas raças predispostas. Mas não esqueça que as demais raças e nossos queridos amigos “vira-latas” não estão livres de alterações oftálmicas.

12/04/2009

Úlceras de Córnea

Úlceras de córnea ocorrem com grande freqüência em cães e gatos, principalmente nas raças braquicefálicas (focinho “achatado”). Podem ser causadas por diversos motivos, mas os principais são os traumas, entrópio (pálpebras viradas para dentro), triquíase e distiquíase (cílios e pêlos tocando a córnea) e ceratoconjuntivite seca (doença causada pela diminuição da quantidade ou da qualidade da lágrima).

Por que tratar a Úlcera de Córnea?


Quanto mais superficial a úlcera de córnea mais dolorida ela é, pois as terminações nervosas da córnea se encontraram na superfície. Por isso que apresentamos o reflexo de piscar quando cai um cisco no olho, por exemplo. Portanto quando seu animalzinho aparentar desconforto ocular (olho fechado, piscando muito e lacrimejando), procure o mais rápido possível um oftalmologista veterinário. Agora você pode se perguntar: “mas se é superficial, porque a urgência no atendimento?”. Porque em úlceras mais profundas a dor é menos intensa (não há terminações nervosas nas camadas mais profundas), então você pode achar que ele está “melhorando”, mas na verdade a situação está mais grave, e uma úlcera de córnea não tratada, ou tratada de maneira incorreta, pode levar à perfuração ocular.

Constituição da Córnea


Apesar de a córnea ser uma estrutura fina (0,6 a 1,0 mm de espessura central em cães) microscopicamente é constituída por quatro camadas:
  • Epitélio com membrana basal;
  • Estroma;
  • Membrana de descemet e endotélio (figura 1 A).
Quando ocorre uma úlcera superficial, a camada epitelial já foi perdida e a lesão já se encontra no estroma (figura 1 B).

camadas histológicas da córnea e de uma córnea com úlcera

Figura 1: Desenho esquemático das camadas histológicas da córnea (A) e de uma úlcera corneana atingindo a camada estromal (B).

Diagnóstico de Úlcera de Córnea


O diagnóstico é realizado quando instilamos colírio de fluoresceína sobre a córnea. Este colírio irá corar de verde o local onde está a úlcera (figura 2 B).

Córnea antes e depois do teste de fluoresceína

Figura 2: Córnea antes do teste da fluoresceína. Teste da fluoresceína positiva evidenciando úlcera de córnea superficial em cão (seta) (B).

Sem este teste, muitas vezes, é difícil localizar a lesão (figura 2 A). Mas a fluoresceína só cora a camada estromal da córnea, portanto úlceras muito profundas (figura 3), com risco de perfuração ocular, não se coram.

Úlcera profunda

Figura 3: Úlcera profunda (seta) em cão com ceratoconjuntivite seca crônica. Observe intensa melanose e edema de córnea.

04/04/2009

Bulbo Ocular

Vou falar hoje sobre o Bulbo Ocular e algumas de suas características. Vamos inicialmente nos familiarizar com a anatomia ocular e nos próximos artigos abordar aos poucos suas características. Gostaria de lembrar que devido às diferenças entre as espécies animais e ainda entre as raças, a oftalmologia veterinária é uma área muito vasta, portanto deve ser exercida por um especialista que se dedique somente ao estudo deste ramo da medicina veterinária.

Anatomia do Bulbo do Olho


A parede do bulbo do olho é constituída por três túnicas:
  • Túnica externa, fibrosa e protetora, representada pela esclera e pela córnea;
  • Túnica média vascular, constituída pela úvea que divide-se em íris, corpo ciliar e coróide ; e
  • Túnica interna nervosa, com a retina, disco do nervo óptico e nervo óptico.
O humor aquoso, o cristalino e o vítreo preenchem todo o olho. A maior parte deste preenchimento, cerca de três quartos, é devido ao vítreo.

bulbo ocular

Figura 1: Desenho esquemático do bulbo ocular.


olho felino

Figura 2: Vista lateral do olho felino. Observar transparência da córnea.

Superfície ocular sem alterações


As estruturas que integram a superfície ocular são:
  • a conjuntiva;

  • a membrana nictitante (terceira pálpebra);

  • a córnea; e

  • a esclera.
A terceira pálpebra pode ser pigmentada (Figura 3 A) ou não (Figura 3 B). A córnea sem alterações é transparente, sem vasos sanguíneos e sem pigmentos, possibilitando a visibilização da íris (parte colorida) e da pupila (menina dos olhos). Notar a diferença na pupila de cães e gatos quando em miose (pupila pequena na presença de luz).



Figura 3: Superfície ocular normal do cão (A) e do gato (B).

No próximo post vou falar um pouco mais sobre a córnea, as doenças mais comuns e como evitá-las.

29/03/2009

Oftalmologia Veterinária

Muitas pessoas ainda se surpreendem quando escutam alguém falar em oftalmologista para animais, ou seja, um médico veterinário especialista em oftalmologia. A primeira pergunta é: “Vai colocar óculos em cachorro?". Realmente esse não é o objetivo, já que os animais não possuem uma capacidade visual tão desenvolvida quanto nós humanos, mesmo porque, para as suas atividades, não é necessária uma visão rica em detalhes. Mas a oftalmologia é muito mais do que diagnosticar e corrigir miopia, astigmatismo e hipermetropia. Existem muitas doenças que são bem semelhantes em humanos e animais, como a catarata, o glaucoma e as úlceras de córnea.

examinando coelho


Mensuração da pressão intra-ocular em um coelho com tonômetro de rebote (tonovet). Serviço de oftalmologia veterinária UFRGS.

Portanto, o objetivo deste blog é divulgar a oftalmologia veterinária e auxiliar no esclarecimento sobre as principais doenças oculares em animais. Pretendo atingir todas as pessoas que convivem com animais: proprietários, criadores, alunos de medicina veterinária, médicos veterinários e também aqueles que, simplesmente amam esses seres incríveis.

No menu "agende sua consulta" é possível verificar onde atendo em Porto Alegre.
Sejam bem vindos!


Leia mais sobre Oftalmologia Veterinária:


Informações sobre a M.V.Msc. Fabiana Quartiero

Olá! Meu nome é Fabiana Quartiero Pereira, sou Médica Veterinária, Mestre e Doutora em Ciências Veterinárias com ênfase em Oftalmologia Veterinária pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Sou mãe de cinco filhos, sendo quatro deles adotados e de 4 patas: Gringo (SRD), Albert (Poodle), Catarina (SRD) e Sofia (SRD).

Por que escolhi oftalmologia veterinária? Tudo começou ainda na faculdade, quando um professor falava sobre as especialidades dentro da clínica e cirurgia veterinária. Então resolvi começar a estudar oftalmologia e foi amor à primeira vista (literalmente!). A partir de então direcionei todos os meus estudos, cursos, palestras e estágios para esta área.

Prestei atendimento clínico e cirúrgico somente na área de Oftalmologia Veterinária no Hospital de Clínicas Veterinárias da UFRGS de 2007 a 2013. Atualmente, presto atendimento oftalmologico clínico e cirúrgico em Porto Alegre-RS.



    Fabiana Quartiero Pereira e Gringo



INFORMAÇÕES:

e-mail: fabianaquartiero@hotmail.com
Fone: (051) 3388-1001


Currículo Lattes

Tese de Mestrado

Publicação em revista internacional